FUVEST: Essa é a redação que eu queria escrever!!!
Depois de muitos anos de passividade em todo o mundo, podemos dizer que desde de 2008 a participação política é cada vez maior.
No Egito, Líbia, Síria, Bahrein, Tunísia e outros países do norte da África e do Oriente Médio, diversos setores da população se colocam como detentores do destino político de seus países. Decidiram com milhares nas ruas que não queriam mais ditaduras. Hoje no Egito vão além, e dizem que para além disso não querem tampouco governos militares que em nada mudam a condição de suas vidas. Caminham para dizer não ao imperialismo, para defender os palestinos historicamente oprimidos pelo imperialismo norte-americano. São cotidianamente mortos e torturados pela polícia e pelos exércitos nacionais e internacionais.
Na Argentina a classe trabalhadora acaba de eleger representantes trabalhadores da Frente de Esquerda (FIT) para estar no Parlamento como representantes da voz operária, denunciando a política da esquerda traidora e da burguesia com suas negociatas. Os partidos de esquerda são perseguidos, trabalhadores são demitidos. ZANON, fábrica tomada por trabalhadores deve constantemente se defender de reintegrações de posse ordenadas pelo antigo dono à polícia.
No Chile, a juventude levou milhares às ruas, convocou seus pais, se ligou aos mineradores, ocupou escolas. Fez do colégio A-90 o único espaço de educação auto-gestionado, com aulas acontecendo regularmente sob controle estudantil e de trabalhadores. Exigem, com uma greve de meses, barricadas e rostos cobertos, a educação gratuita em um país onde, se houvesse um tripé da burguesia, essa seria uma de suas bases. A polícia os estupra, tortura, mata. Mas eles continuam na rua e fazem da política a luta pelo justo poder sobre a vida.
No Brasil, mais especificamente em Jirau, trabalhadores da Usina Hidrelétrica sob construção da Camargo Correa (empresa que financiou a tortura e perseguição aos “subversivos” da década de 70) passaram um mês numa dura greve que denuncia o regime de trabalho a que eram submetidos. Entraram no cerne da política demonstrando o que estava por trás do Brasil potência dos discursos de Lula e de Dilma. Com eles foi negociada uma pauta mínima, burocraticamente pelos sindicatos pelegos que os representavam. Foram reprimidos pela polícia.
Na USP, no ano de 2011, 270 trabalhadores foram demitidos pelo Reitor Rodas. Poucas readmissões e nenhum concurso com essa quantidade de vagas escancaram o que acontecerão com esses cargos: terceirização. Em abril e maio desse mesmo ano, centenas de trabalhadoras terceirizadas da UNIÃO gritaram em alto e bom som o que significa essa palavra. Terceirizar é escravizar. Percorreram os corredores mostrando aos estudantes que tinham voz, que com salários atrasados, participariam então da política para dizer a quem quisesse ouvir “ô estudante, eu limpo o chão, mas eu sou contra a escravidão”. Todas foram demitidas. Ainda não receberam seu FGTS, algumas não conseguiram o seguro desemprego. Estão atrás de novos trabalhos, e as empresas contratadas pela USP batem a porta nas suas caras porque diz que alí, na Universidade de São Paulo e naquela empresa não vai trabalhar grevista. Em 2009, Brandão, um dos dirigentes sindicais do SINTUSP foi demitido por defender terceirizados.
Nos últimos anos, após uma ocupação que escancara a profunda lacuna de permanência estudantil, 6 estudantes foram eliminados da Universidade de São Paulo. Depois de anos com greves e paralisações que visavam garantir a qualidade de vida dos trabalhadores da USP, ou demonstrar solidariedade de classe a outras categorias, o SINTUSP também vem sendo processado pela Reitoria com base nos mesmos decretos uspianos que eliminam os estudantes. Decretos esses elaborados e estabelecidos nos anos da ditadura, que condenam a participação política, a colagem de cartazes políticos, visa a eliminação e demissão de “subversivos”…
Mais para o final do ano, 3 estudantes seriam presos por consumir maconha. Os estudantes se negaram a aceitar as leis da sociedade, e em centenas, impediram que houvessem prisões. Questionar as leis é perigoso: acaba com escravidão, ganha divórcio. Quem questiona a lei é criminoso. Por isso, quando estavam ocupados na Reitoria da USP, os estudantes que faziam “participação política” questionando a polícia que retira a autonomia universitária, que reprime as mobilizações, que espanca e assassina negras e negros nas periferias (e agora na USP também), a Reitoria exigiu que todos fossem presos, fichados e processados. Dizem que nossa participação política que pede um novo Estatuto universitário que dê fim aos decretos ditatoriais, que pede democratização do acesso e da permanência na universidade é coisa de gente criminosa, e que por isso temos que ser presos ou eliminados.
Às vezes sem farda vemos outras ações dessa mesma polícia. Há poucos dias, por sua participação política, os trabalhadores do SINTUSP (Sindicato de Trabalhadores da USP) correram o risco de perder vidas por uma sabotagem: todas as bocas de um fogão industrial localizado dentro do SINTUSP estavam abertas esperando por uma faísca para explodir o espaço e seus frequentadores.
Em toda a minha permanência na universidade, questionei o mundo e me coloquei politicamente. Rompi algumas amarras de alienação e de estagnação que nos são impostas. Em 2009, estive na USP quando a polícia entrou. Cotidianamente, ouço falar das tentativas de destruição do Núcleo de Consciência Negra. Em 2011, tive companheiros demitidos, eliminados. Há poucos meses, fui presa na ocupação da Reitoria. Visando ingressar na USP, fui prestar o vestibular. Nervosa, pois ouvi Rodas (atual Reitor da USP) dizer que esse ano a FUVEST seria mais seletiva. Não sabia o que me esperava.
Quando abri o caderno de português, entendi. A proposta da redação é “participação política”. A princípio pensei “os caras querem passar um pano”, afinal, se enfiaram numa lama que defender participação política agora dá uma amenizada. Depois lembrei da frase do Rodas, e percebi que o que eles queriam e receber redações como essa e poder eliminar de maneira mais fácil qualquer pessoa que fosse de esquerda. Pra que esperar entrar na USP pra saberem o que você pensa? Pra que gastarem com operativo policial, processo trabalhista, investigação administrativa?
Mas o mais engraçado é que fica mesmo a impressão de que a USP acha que devemos participar politicamente. Mas fica aqui também um aviso, caro calouro: a única participação que lhes convém é a do Gama e Silva em 1968, ou a da Camargo Correa para as forças armadas na mesma época. A sua participação “questionadora” eles podem até gostar. Mas não é porque concordam com você, mas porque prum facista é sempre bom ter alguém que ele possa torturar.
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